Eisenstein

Sergei Eisenstein
(1898 – 1948)

Sergei Eisenstein nasceu a 23 de Janeiro de 1898, em Riga, na Letônia, filho de um engenheiro e de uma mulher da burguesia. Enquanto jovem frequentou uma escola estatal de ciências, de forma a preparar-se para a escola de engenharia, seguindo os passos do seu pai. Apesar disso, conseguia arranjar algum tempo para as suas leituras em russo, alemão, inglês e francês, tal como para desenhar e actuar numa trupe teatral composta por crianças que ele próprio tinha fundado. Em 1915 mudou-se para Petrogrado para continuar os seus estudos no Instituto de Engenharia Civil.

Depois da revolução de Fevereiro de 1917 vendeu os seus primeiros cartoons políticos, assinando como Sir Gay, a diversas revistas de Petrogrado. Inscreveu-se também na milícia de voluntários e no corpo de engenharia do exército russo. Eisenstein conseguiu combinar os seus afazeres de soldado com um estudo técnico aprofundado de teatro, filosofia, psicologia e linguística. Encenou e actuou em diversas peças, para as quais desenhou ainda os cenários e o guarda-roupa.

Em 1920 abandonou o exército e ingressou na Academia Geral de Moscovo onde se juntou ao Teatro dos Trabalhadores Proletkult. Eisenstein inscreveu-se na oficina de teatro de Meyerhold, o seu ídolo, e colaborou com diversas companhias de teatro vanguardistas, que compartilhavam entre si um desprezo pelas formas tradicionais de arte e pela chamada “cultura elevada” em geral. A contribuição deste novo teatro para a causa revolucionária consistia numa destruição da arte velha e na criação de uma nova e mais democrática. Os jovens artistas soviéticos serviam-se das formas de cultura consideradas menos eruditas – o circo, o musical, os desportos, as actuações de feira – para educar a imensa multidão de russos iletrados num “verdadeiro” espírito comunista.

Os estudos que Eisenstein realizou sobre a “commedia dell’arte” italiana foram essenciais na sua encenação de estreia intitulada “O sábio”, um gigantesco sucesso não só como teatro de propaganda mas também como entretenimento puro. Para essa produção ele realizou uma curta-metragem de comédia, “O diário de Glumov” (1923), uma paródia dos cinejornais cujas metamorfoses grotescas do protagonista antecipam as complexas metáforas de “A greve” (1924), a sua primeira longa-metragem. Mas o factor mais importante para a sua carreira de cineasta foi a estrutura de “O sábio”. Eisenstein pegou numa velha peça de Ostrovsky e reconstruiu-a como um conjunto de atracções de circo. A seqüência dessas cenas era de tal forma díspar e chocante que, no seu manifesto de 1923, Eisenstein afirmaria que a montagem das atracções dirigiria a atenção do público na direcção planeada pelo montador.

Tendo estudado os filme de Griffith, as experiências de montagem de Lev Kuleshov e as técnicas de re-edição de Esfir Shub, Eisenstein convenceu-se de que no cinema se podem manipular espaço e tempo para criar novos significados, especialmente se as imagens não estivessem somente ligadas, como Kuleshov sugeria, mas justapostas. Porque nessa altura acreditava que o seu dever como artista era contribuir para a criação de um novo estilo de vida para o seu país, Eisenstein abraçou o meio fílmico como uma das mais eficientes ferramentas ao serviço da propaganda comunista. Contudo, apesar de “A greve” ser uma condenação do czarismo, é também uma inovadora obra de arte. “A greve” está pejado de ângulos de câmara expressionistas, reflexos em espelhos e metáforas visuais. Numa história de espionagem policial, a câmara transforma-se ela própria num espião, num voyeur, num mágico pleno de truques. Esta obra foi a primeira demonstração da nova gramática cinematográfica de Eisenstein, uma “montagem de planos conflituosos que funcionam como palavras e frases interligadas com o máximo poder de persuasão”. Embora o seu controle desta nova técnica ainda fosse um pouco confuso – algumas seqüências não conseguem fazer passar a mensagem pretendida – “A greve” foi um acontecimento cinematográfico revolucionário e único.

Como o segundo filme de Eisenstein, o enormemente influente “O couraçado Potemkine” (1925), demonstrou, a sua arte poderia ser mais poderosa quando atingisse um equilíbrio entre formas narrativas tradicionais e experimentais. Se “A greve” era um poema visual agitado que apelava à emoção das audiências, “O couraçado Potemkine”, a história ficcionada de um dos mais trágicos episódios da revolução de 1905, era um trabalho de prosa, altamente emocional, mas muito claro no seu discurso lógico e público.

Nos anos 20, Eisenstein procurava encontrar uma base racional para o trabalho de montagem, tendo-a encontrado na reflologia de Bekhterv, na teoria literária formalista russa e na dialéctica marxista. Conforme os seus filmes se tornavam mais complexos, levantava-se a ira de um novo conjunto de ideólogos que consideravam que o cinema deveria ser uma forma de arte acessível às massas e suficientemente flexível para ilustrar os interesses do governo. Contudo, Eisenstein estava demasiado envolvido na sua pesquisa pessoal para se preocupar com a política mundana. Daí que “Outubro”, um filme produzido para as comemorações do décimo aniversário da revolução de Outubro de 1917, tenha sido lançado apenas em 1928, virtude de todas as cenas que incluíam a personagem Trotsky, um dos líderes da revolta, terem sido cortadas.

A recepção de Eisenstein na Europa transmitiu-lhe a ideia de que ele poderia ser, simultaneamente, um artista de vanguarda e um criador de filmes populares e ideologicamente “correctos”. Em todos os países que visitou foi muito bem recebido por estudantes radicais e pela classe intelectual. Conheceu James Joyce, Jean Cocteau, Abel Gance, Marinetti, Albert Einstein, Le Corbusier e Gertrude Stein, sendo que todos mostraram a sua admiração pelo seu trabalho. Em Maio de 1930, Eisenstein chegou aos Estados Unidos, onde deu conferências em diversas universidades antes de chegar a Hollywood, onde esperava fazer um filme para os estúdios Paramount. Embora tenha sido recebido por grandes figuras do cinema norte-americano, incluindo Douglar Fairbanks, Josef von Sternberg, Walt Disney e, especialmente, Charles Chaplin, que se tornou seu amigo pessoal, o seu propósito de adaptar “Uma tragédia americana” foi rejeitado por ser demasiado complexo, tal como outros projectos altamente originais da sua lavra.

Pouco antes de abandonar os EUA, Eisenstein foi encorajado por Robert Flaherty e Diego Rivera para fazer um filme sobre o México e, em Dezembro de 1930, com fundos de Upton Sinclair, começou a trabalhar em “Que viva México”. Este projecto, que prometia tornar-se no mais importante e ousado do cineasta, teve um desfecho trágico quando Sinclair, cedendo a pressões da sua família que citava razões financeiras, e Estaline, temendo que Eisenstein desertasse, cancelaram a rodagem do filme que, por aquela altura, estava quase acabada. Embora lhe tenha sido dito que o material filmado seria enviado para Moscovo para ser montado, nunca chegou a ser visto de novo.

Entristecido pela perda do seu material filmado e chocado pelas diferenças no clima político e cultural observadas nos três anos que passou no estrangeiro, Eisenstein sofreu uma depressão nervosa. Um a seguir ao outro, os seus projectos eram rejeitados com veemência e o cineasta tornou-se num dos alvos de hostilidade por parte de Boris Shumyatsky, o chefe da indústria cinematográfica soviética. Com as suas más memórias quanto ao cinema comercial e os fortes elos estabelecidos com o modernismo europeu, Eisenstein não conseguiu fazer a mudança ideológica para os novos realizadores “agitkas” e isso foi entendido como sendo uma ameaça. Foi chamado a uma reunião como o chefe do Departamento de Direcção da Escola de Cinema de Moscovo e tornou-se num professor devoto e num estudioso das matérias fílmicas. Em Janeiro de 1935 foi vilificado na Conferência Geral de Trabalhadores do Cinema mas, eventualmente, foi-lhe permitido começar a trabalhar no seu primeiro filme sonoro “O prado de Béjine”.

Como que para salvar a sua carreira no cinema, Eisenstein envolveu-se na produção de “Alexander Nevsky” (1938), um filme acerca de um príncipe russo do séc. XIII e do sucesso das suas batalhas contra as hordas invasoras de alemãs. Este monumental épico marca um dramático afastamento de Eisenstein em relação aos seus princípios de montagem e de tipagem. “Alexander Nevsky” foi um passo atrás deliberado, na direcção do teatro mais antiquado ou, pior ainda, no sentido das produções operáticas de que Eisenstein tinha sido um forte opositor na década de 20. Todavia, o filme demonstra as qualidades de Eisenstein em muitas sequências, como a famosa cena de batalha sobre o lago gelado. Também significativas foram as suas tentativas para atingir a síntese entre os elementos plásticos do filme e a música, contando com uma memorável banda-sonora de Sergei Prokofiev refletindo, provavelmente, “a admiração prolongada de Eisenstein pelos desenhos animados de Walt Disney”.

A 1 de Fevereiro de 1939 foi premidao com a Ordem de Lenine por “Alexander Nevsky” e pouco depois envolveu-se nu novo projeto, “O grande canal de Fergana”, esperando criar um épico de uma escala semelhante à do seu projecto abortado no México. Contudo, após um intensivo processo de pré-produção, o trabalho no projeto foi cancelado logo a seguir à assinatura do pacto de não-agressão entre a URSS e a Alemanha nazista e “Alexander Nevsky” foi, por seu lado, arquivado de uma forma muito discreta.

Em Fevereiro de 1940, uma emissão da Rádio Moscovo para a Alemanha, Eisenstein sugeriu que o pacto assinado criava uma base sólida para cooperação cultural. Nessa altura, foi-lhe pedido que encenasse a ópera de Richard Wagner “A valquíria” no Teatro Bolshoi. A 21 de Novembro de 1940, os diplomatas alemães em Moscovo, tal como o próprio Estaline, mostraram-se desarmados perante a encenação de Eisenstein, afirmando que incluía “truques judeus deliberados”. Contudo, quando os nazistas atacaram a Rússia menos de um ano depois, foi altura de a ópera de Wagner ser banida e de “Alexander Nevsky” voltar aos cinemas.

Em 1941, Eisenstein iniciou a produção de um épico histórico de uma escala ainda maior, um filme em três partes glorificando a personagem mentalmente desequilibrada e assassina do czar russo do séc. XVI Ivan, o terrível. Contudo, “Ivan, o terrível, parte I” (1943) foi um enorme sucesso e Eisenstein foi premiado com o Prémio Estaline. Já “Ivan, o terrível, parte II” (1946) mostrava uma visão bem diferente do czar: um tirano sanguinário que era o indiscutível predecessor de Estaline. Naturalmente, o filme foi proibido e o material filmado da terceira parte da obra foi destruída. Eisenstein foi hospitalizado devido a um ataque cardíaco mas conseguiu recuperar e pediu a Estaline que “Ivan, o terrível, parte II” fosse revisto pelo comitê burocrático, tendo sido mais uma vez proibido. Eisenstein estava demasiado fraco para continuar a rodagem do filme e acabou por falecer em 1948, rodeado por trabalhos teóricos inacabados e planos para novos filmes. A segunda parte do seu filme foi mostrada pela primeira vez em 1958 no sexagésimo aniversário do nascimento do cineasta russo. A morte de Eisenstein impediu-o de continuar muitos dos seus trabalhos teóricos na área da psicologia da criatividade, da antropologia da arte e de semiótica. Embora a sua linha cinematográfica não tenha tido nenhuns seguidores directos, os seus ensaios sobre a natureza do cinema foram traduzidos para diversas línguas e são estudados em diversas universidades pelo mundo afora. A sua influência sobre o desenvolvimento do cinema é incalculável e a importância da sua obra para a definição das capacidades e limitações da sétima arte, coloca-o entre o grupo muito restrito dos cineastas mais importantes de sempre e entre os maiores artistas de sempre.

Excerto de artigo SERGEI MIKHAILVOLITCH EISENSTEIN disponível em http://www.ipv.pt/forumedia/5/default.htm